‘Reafirmamos nossa história’, enfatiza governador Clécio na abertura da Semana Estadual do Marabaixo com show de Alcione
Evento no Parque da Residência marcou o retorno da manifestação cultural a um território ligado à história da população negra de Macapá.
O som das caixas de marabaixo ecoou neste domingo, 14, em um dos espaços mais simbólicos da história do Amapá. Ao abrir a Semana Estadual do Marabaixo no Parque Residência, antiga casa dos governadores, em Macapá, o governador Clécio Luís devolveu o protagonismo às tradições afro-amapaenses em um local que faz parte da história da população negra do estado. A noite ficou ainda mais especial com o show nacional da cantora Alcione.
“É um dia muito importante para todos nós. É como um caminho de volta para casa; uma reparação histórica. Os negros de Macapá já viviam neste lugar, às margens do Rio Amazonas. Com a ocupação da área, essas famílias foram retiradas e levadas para outras regiões, como o Laguinho e a área que hoje corresponde aos bairros Santa Rita e Centro. Ao trazer o Marabaixo para este espaço, reafirmamos a importância da nossa história, da nossa cultura e do povo negro na formação do Amapá", enfatizou Clécio Luís.
Ancestralidade
Ao lado dos festeiros de sete barracões do Ciclo do Marabaixo, o governador acompanhou a programação com tradições da cultura afro-amapaense, como o cortejo da murta e a levantamento dos mastros da Santíssima Trindade e do Divino Espírito Santo. Para a marabaixeira Danniela Ramos, bisneta de Julião Ramos, a celebração teve um significado especial ao retornar ao espaço marcado pela memória e resistência do povo negro amapaense.
“Hoje, o governador Clécio traz os pretos de volta para o nosso lugar. Fazemos esse retorno ao Parque Residência, território dos pretos do Laguinho e da Favela. Foi daqui que nossos antepassados saíram, mas levaram consigo a tradição do Marabaixo, que segue viva e fortalecida até hoje”, destacou Danniela.
Reparação histórica
A diretora-presidente da Fundação Estadual de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Josilana Santos, reforçou que a iniciativa valoriza a identidade afrodescendente e reconhece o povo negro como protagonista na construção da história de Macapá e do Amapá.
"O dia 14 de junho fica marcado na história do povo negro deste estado. Trazer para este espaço a representação da ritualística que acontece nos barracões tradicionais é uma política de reparação histórica, que valoriza a identidade do povo do Amapá, um povo afrodescendente que sempre esteve na linha de frente da construção desta cidade e deste estado", afirmou Josilana.
Preservação dos saberes ancestrais
Os mastros levantados carregam significados que atravessam gerações. Enfeitados com ramos de murta, eles representam proteção e espiritualidade dentro da tradição afro-amapaense. Posicionada na parte externa, a murta é vista pelos marabaixeiros como um elemento de purificação, responsável por afastar energias negativas e maus presságios, protegendo os mastros ornamentados que permanecem no interior dos barracões.
Já os mastros pintados simbolizam a continuidade e a resistência da cultura do Marabaixo. Para os festeiros, quanto mais tempo eles permanecem erguidos durante a festividade, maior é o simbolismo de permanência e fortalecimento da tradição, reforçando o compromisso das comunidades com a preservação de seus costumes e saberes ancestrais.
Renovados a cada ano, os mastros são retirados de áreas de mata em comunidades tradicionais, como Curiaú, Coração, Campina Grande e Casa Grande. O ritual de busca e preparação da madeira representa o ciclo permanente de renovação da cultura afro-amapaense, reafirmando a ligação entre o território, a ancestralidade e a continuidade das celebrações do Marabaixo.
Marabaixo vive!
Esse é o propósito pessoal e coletivo do presidente do Grupo Marabaixo da Juventude, Fábio Sacaca, de 28 anos. Herdeiro de uma tradição familiar que atravessa gerações desde os bisavós, ele assume a missão de manter viva a cultura marabaixeira e garantir que os ensinamentos ancestrais continuem sendo transmitidos às novas gerações.
A responsabilidade também se reflete dentro de casa. Pai de duas meninas, Fábio já vê a continuidade dessa história na própria família. A filha mais velha, de 12 anos, participa ativamente das celebrações do Marabaixo, enquanto a caçula, de apenas 2 anos, começa a dar os primeiros passos ao som das caixas e dos ladrões, acompanhando desde cedo os rituais e tradições que marcam a identidade cultural afro-amapaense.
“Com isso, a gente revive aquilo que os nossos antepassados viveram no início do século passado. Hoje, mantemos viva essa memória e celebramos esse legado, louvando e agradecendo a Deus, ao Divino Espírito Santo, à Santíssima Trindade e aos nossos santos padroeiros pela oportunidade de estarmos reunidos para viver e celebrar esse momento tão importante para a nossa cultura e para a nossa fé”, contou Fábio Sacaca.
A cultura amapaense na voz de Alcione
Em seu show, Alcione apresentou grandes sucessos da carreira, como “A Loba”, “Não Deixe o Samba Morrer” e “Meu Ébano”, mas também abriu espaço para a cultura amapaense ao interpretar o tradicional ladrão de marabaixo “Aonde Tu Vai, Rapaz?”, acompanhada por marabaixeiros e tocadores de caixas no palco.
A apresentação reforça a parceria construída por meio do projeto “Marabaixo: Tradição do Amapá”, do Governo do Estado, que reuniu a voz da cantora a ladrões tradicionais como “Rosa Branca Açucena”, “Meu Sarilho é Dobrador” e “Eu Caio, Eu Caio”, em colaboração com artistas amapaenses. A iniciativa busca ampliar a visibilidade do Marabaixo e fortalecer a valorização da cultura afro-amapaense em âmbito nacional.
Patrimônio cultural imaterial
Patrimônio Cultural Imaterial do Amapá, o Marabaixo também chegou ao conhecimento da artista por meio do desfile da escola de samba Estação Primeira de Mangueira no Carnaval deste ano. Com o enredo “Amazônia Negra”, a agremiação levou para a Marquês de Sapucaí referências à ancestralidade amazônica e às tradições do Marabaixo.
A participação do Amapá no desfile contou com articulação do Governo do Estado e apoio do senador Davi Alcolumbre, fortalecendo a divulgação das manifestações culturais amapaenses em uma das maiores vitrines culturais do país.
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